A exploração de Portugal através de Paula Lee contraria o que aprendemos na escola sobre os nossos dominadores.
Uma brasileira decide fazer do seu destino uma história repleta de superações. Ela poderia ser mais uma telefonista ou até mesmo uma eficiente executiva. Contudo preferiu deixar para trás a confusa rede de valores das nossas organizações, em troca de uma aventura em solo lusitano: Tornar-se prostituta.
Lá, depois de muitas idas e vindas, ela conquista a atenção da respeitável editora Dom Quixote com sua autobiografia.
Paula nasce de um movimento relegado pela mídia convencional: a mudança dos blogs de simples diários pessoais para uma poderosa ferramenta de divulgação profissional. Através do seu espaço: Amante Profissional, ela conseguiu uma das maiores audiências da internet em língua portuguesa. Nesse caso, o público teve a oportunidade de conhecer o estilo da autora, e saber o que poderia estar reservado para uma reflexão mais aprofundada.
Ao mesmo tempo em que a internet gera essa expectativa, esse mesmo fato poderia despertar o receio de editores e leitores com relação ao seu livro. Afinal qual novidade surgiria de uma pessoa que escreve compulsivamente em seu blog?
Zás, mais um ponto para a moça! O livro trata de uma fase pré-portugal e da sua iniciação no mundo da prostituição através de uma rota que escancara as mazelas do nosso desigual país.
E a pergunta que não cala é: Porque uma candidata a executiva trocaria sua promissora carreira por uma casa de prostituição europeia?
Nós que desejamos um país melhor, e lutamos todos os dias para que isso ocorra, sabemos o que é viver na corda bamba. Sabemos o custo que é negar subornos, propinas, e outras formas de ganho ilícito; o conhecido roubo disfarçado de “jeitinho”. Nós vivemos na fronteira entre o ético e o imoral, e todos os dias temos que revisitar nosso conceito de honestidade. O livro de Paula trata disso de uma maneira leve e às vezes até ingênua…
Alugo o Meu Corpo é um desafio para rever conceitos, pois foi diante dessas descobertas, diante de ambientes profissionais tão conturbados que nossa autora decidiu pela pragmática do mercado, pela lógica capitalista que nos coloca diante da “prostituição” pela nossa força de trabalho. Ora se ela percebeu a utilização do corpo, dentro das organizações formais (empresas) como fator de ganho profissional, porque seria indecente, fazê-lo da forma mais sincera e clara nos bordéis? Essa lógica é perturbadora, mas é a que presenciamos todos os dias em nossas lindas empresas, não é verdade?
O livro nos coloca um passo a frente do senso comum quando descreve o trabalho dentro de uma casa de prostituição. Talvez o “espetáculo” seja tão hipnótico que os frequentadores não consideram o caráter formal e burocrático que há nessas organizações. Talvez as músicas, as luzes, e os ingredientes que os estimulam, consigam inibir a percepção de uma estrutura com culturas e leis próprias; com direito a hierarquias, divisão de tarefas, aspectos motivacionais, progressões e quedas de produtividade, e o abrigo de trabalhadores das mais diversas esferas: Autônomos, assalariados, comissionados, e até mesmo escravos. No livro, essa indústria secular é despida de toda a sua informalidade, e caso nossa sociedade não incorresse em tanta hipocrisia, seria apenas o diário de uma escritora que se fez prostituta para pesquisar mais uma profissão. Como trata-se de uma autobiografia, Paula Lee nos comunica que continuará alugando seu corpo para os clientes; para quem ler sua obra ficará uma convicção: A humanidade dessa Mulher Brasileira não pode ser comercializada por preço algum…
Obs.: Infelizmente o livro não está ainda a venda no Brasil. Em Portugal está sendo muito bem distribuído, e pode ser encontrado até mesmo em bibliotecas públicas. Você pode encontrar maiores informações na Página do Livro.