Por que HajaLuz?
O SONHO
A recordação mais forte da minha infância foi um sonho. Nele eu recebia uma carta que anunciava o fim de tudo e tinha a missão de entregá-la para alguma localização desconhecida.
Esse sonho é bem compreensível no contexto da década de 80. Todos esperavam pelo apocalipse da guerra nuclear entre EUA e URSS.
Lembro-me de um disco de vinil que ganhei. Nesse disco os cantores mais populares da época entoavam músicas com temas infantis, tais como a de Renato Russo:
“Existe alguém esperando por você, que vai tomar a sua juventude, você vai ver…/…o senhor da guerra não gosta de crianças”
A ADOLESCÊNCIA
Essa busca mística se intensificou. Morando em um bairro da periferia de Vitória, lidei com a violência urbana, e assisti vários amigos de escola “desaparecendo”.
Só víamos em nossa frente duas alternativas a droga ou a igreja. Eu optei pela segunda. Lá, dos quatorze aos dezenove anos, dediquei meus dias com intensidade à causa cristã. Essa dedicação consistiu em passar quatro anos em um seminário protestante para compreender melhor “a palavra de deus”.
Talvez no meu inconsciente, quem sabe, estava embalado por aquele sonho infantil de anunciar às pessoas uma alternativa de vida.
Pois é! Nesse meio tempo, a ênfase no fim do mundo se perdeu. Já estávamos na era Collor, na visão progressista, era um “novo” país. Todos “brigavam” por vida plena. Nas empresas, nas escolas, e nas igrejas, a maior preocupação era como viver melhor, com mais grana e mais “harmonia” democrática.
OS CORREIOS
O idealismo religioso durou pouco!
Percebendo a clara contrariedade entre discurso e prática. Não poderia conviver com pessoas que literalmente usurpam a fé e os sonhos de homens e mulheres. Aos poucos fui percebendo que os religiosos não são muito diferentes dos traficantes, enquanto esses roubam a vida do corpo, aqueles roubam o corpo e a alma do povo.
Nesse meio tempo, lá pelos dezoito anos, já estava nos Correios. E a pergunta que mais odeio é: Você foi carteiro mesmo?
Transportei nesse período cerca de quarenta quilos diariamente. Dos quais nunca esquecerei momento algum. Foi uma fase de lapidação. Conheci homens fortes que se transformavam em meninos; que choravam, e bebiam todos os dias para esquecer o engodo em que eles mesmo se submetiam espontaneamente.
Foi lá que aprendi o que é “controle”, “comportamento organizacional”, antes mesmo de entrar na faculdade. Os próprios chefes perceberam essa visão diferenciada. Por algumas vezes colaborei intensamente, outras nem tanto. Minha verdadeira formação se deve à essas duas experiências.
A UFES
Quando decidi estudar para o vestibular de Administração da UFES, a maioria abriu um sorriso largo e generoso.
Todos apoiaram nas palavras. Mas a grande dúvida dos familiares e dos amigos era: O que um operário iria fazer em uma universidade? Um chefe chegou a perguntar se não era tarde demais; estava então com 24 anos.
De fato a idade tem sido um peso enorme nesses anos de UFES, mas por outro lado ela me proporciona um diferencial. Um equilíbrio imenso nas decisões e muita força para fazer o que a minoria da população brasileira consegue: Graduar em uma universidade federal.
Como as pessoas mais próximas se afastaram decidi colocar meu trabalho na Web. Quem sabe dessa forma o que faço não ganha status de profissão? Para dizer a verdade, comparando o que faço hoje, com o serviço pesado dos Correios, percebo que os homens não choravam em vão. Lá éramos reconhecidos na boca das pessoas, mas menosprezados no salário e no tratamento cotidiano.
Hoje a lógica se inverteu, todos consideram um grande desperdício gastar horas com livros, e uma loucura ficar plantado na frente do computador como um vegetal. Porém quando meus amigos não conseguem entender a web, procuram um menino que um dia sonhou que levava mensagens.
E se há algum fim de mundo nelas, que seja o fim da mesmice e do conformismo.
Por isso é que agora digo a todos: “Haja Luz”!
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