Político é triste né? Ou melhor: não é?

Lembrei do meu estágio no RH de um relevante Ministério do Governo Federal.

Ganhei uma ótima experiência por lá.

A maioria das pessoas imagina o serviço público como um bolsão de improdutividade. No meu setor não era assim. Logo no primeiro dia, o gestor que me contratou foi enfático na minha apresentação à superiora: Esse é o cara da Ufes que você pediu.

Ou seja, a minha superiora estava preocupada em trabalhar com alguém da melhor faculdade da região (como se isso fosse grande coisa além da marca).

Daí passaram os dias e eu percebi que o meu setor era o único que “vestia a camisa”. Alguns setores ao lado, por consequência, eram envolvidos nesse clima, mas quanto mais se distanciava do meu gabinete, mais a coisa desandava em termos de produtividade.

Mas, voltando ao gerúndio! - utilização do voltando proposital, ok?

Mas, volto ao gerúndio! - ficou melhor assim?

A matéria da G1 foi precisa! Pois ele, o gerúndio, não é a raiz da questão. Não é estranho um político desejar eliminar por decreto os males do serviço público. Muito pelo contrário, Arruda está emputecido por alguma questão pessoal e decidiu usar seu esgoto particular - o gabinete do governador - para expressar sua indignação.

Gostei mesmo foi dessa postagem do Mr Mansom, que ironiza até com exemplos pessoais, o quanto esses protestos públicos são hipócritas.

E o que o meu estágio tem a ver com isso?

Lá no RH, sempre quando chegava uma carta, ofício ou qualquer documento escrito por advogados, médicos e afins, os funcionários corriam a ler linha por linha. E quando encontravam algum defeito, as “coroas” atingiam orgasmos múltiplos e coletivos. Além disso o documento, rodava por todo o setor e o “doutor” era posto ao ridículo.

Outro fato bacana naquele estágio: Observei que até mesmo os juízes não eram supervalorizados com pronomes em cima de pronomes. E nessa briga de títulos e expressões gramaticais vi alguns exageros: algumas vezes as cartas iam endereçadas ao Srº Juiz.

Médico então… Não somente no tratamento verbal, mas vi alguns “doutores” passar horas de espera para conversar com nossa superiora - que assim como muito gestores públicos, na ficha funcional, é uma mera auxiliar.

Demitir o gerúndio é uma idiotice!

O combate ao gerundismo, considerado vício de linguagem, ocorre dentro do contexto atual, em que se pede objetividade na comunicação entre pessoas e organizações.

Talvez a atitude de Arruda, possua validade dentro desse contexto, entretanto, sua ficha corrida pede com a mesma atenção, outras dispensas mais úteis à sociedade - seria o caso dele fazer um decreto despedindo-se a si mesmo? Ele não é aquele senador que renúnciou para não ser cassado?

O que penso - para não escrever estava pensando - é que no mesmo distrito federal, o nosso querido gerundismo encontrará emprego rápido. Existe um outro palácio de governo, no qual pessoas de pouca afinidade com as regras gramaticais são muito bem-vindas.

Fora que lá pelos ministérios pode-se encontrar dezenas, e porque não dizer, centenas de “companheiros” fracassados e desesperados por um emprego através de decreto. Lá o nosso amigo gerundismo será acolhido. Senão por eficiência, que seja pelo menos por piedade, assim como se faz com tantos outros, sejam homens ou palavras, politicamente incorrigíveis.

Versos Íntimos
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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