O cliente das Casas Bahia foi morto por vestir-se indevidamente?
Lí a postagem de Marcelo Tas que mostra uma nota da instituição social na qual “zezinho” participou.
A contradição maior nessa história é que um trabalhador de nível básico foi quem consumou o assassinato.
Caro amigo dos direitos humanos, dessa vez não é a classe dominante; não é o crime organizado; não é o colarinho branco que agride a classe trabalhadora. É o próprio trabalhador que não vê no outro o direito de usufruir do mundo capitalista.
Nos deparamos com uma velha prática quando se fala em discriminação; aquela que surge de baixo para cima; essa aí é a raiz de todas as outras:
Será que haveria a discriminação do rico com o pobre se não houvesse a discriminação que o própria classe c, d, e… possui de si própria?
Haveria escravo sem capataz; sem feitor; sem o traficante africano?
Essa pergunta surge no momento da discussão de Zumbi dos Palmares - em alusão ao dia da consciência negra - no qual tentamos entender as motivações para a discriminação racial.
Apesar da própria instituição declarar na carta essa motivação para que o segurança das Casas Bahia efetuasse o disparo fatal; será que o rapaz foi morto por ser mestiço, ou essa afirmação é um faturamento político da tragédia?
Nenhum (a) jovem “mal vestido” (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.
Sempre coloco essa questão para meus alunos - sou instrutor de administração em uma instituição social - Dificilmente nos grupos com que trabalho não há um mestiço. Gosto de questionar sempre se alí alguém concorda com políticas afirmativas, como a de cotas por exemplo. Em meio a mais de 1.000 jovens achei pouquíssimos que as defendessem.
E aqueles que defendem não sabem ao certo o porquê dessa defesa. Só alegam que o mundo é injusto então eles merecem ser colocados na frente para compensar essa injustiça.
Quando discutimos o assunto e eu compartilho minha opinião - inclusive no diálogo com os de pele mais escura - que nosso país é miscigenado e que o racismo é uma grande idiotice. Pois quando discrimino um negro, é um mestiço que fala mal de outro.
Por mais que os militantes pró-cotas queiram faturar com o ódio racial. O Brasil de 2008 é uma nação mestiça. Eu convivo com africanos de verdade na faculdade. Eles vieram direto de Angola e Cabo Verde em um intercâmbio para aprender conosco e também para nos ensinar sobre a forma alegre que levam a vida.
Não sentem-se inferiores. Eu fico surpreso quando mostram sua paixão por Portugal. Pelos times de lá. Eles não tem esse ressentimento dos militantes. Alguns já fizeram intercâmbio em Portugal antes de vir para o Brasil.
Eles são alvo da nossa admiração, pois em meio a tantas dificuldades e preconceito não abaixam a cabeça e não aceitam o esteriótipo de povo inferior.
Os “zezinhos” que morrem todos os dias nas periferias do Brasil, são alvo dessas notas apaixonadas, que não levam em consideração o pior racismo que vigora em nosso meio. É o racismo de nós mesmos. A vergonha que temos em assumir nossas origens. Sempre gostamos do racismo-vítima, mas dificilmente colocamos o dedo na ferida e falamos do racismo do pobre com o pobre. Acabem com esse e os outros tipos de racismo perderão o sentido de ser.
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