Esta partida, publicada originalmente na “Lasker’s Chess Magazine”, de autoria do Sr. Sam Loyd. Embora fantasiosa, isto é o que eu chamo de uma partida verdadeiramente empatada.

Que tabuleiro pantanoso. Um exército completo afogado em apenas doze lances!

1.d4 d6 2.Dd2 e5 3.a4 e4 4.Df4 f5 5.h3 Be7 6.Dh2 Be6 7.Ta3 c5 8.Tg3 Da5+ 9.Cd2 Bh4 10.f3 Bb3 11.d5 e3 12.c4 f4.

O medo de perder é inato na psique do jogador de xadrez.
Eu diria que ele é o pai de grande parte dos empates…

Por Ivan Carlos Regina
Uma partida de xadrez só termina com um dos seguintes resultados: vitória, derrota, empate. Ganhar e perder não necessitam maiores explicações, apenas louros e pêsames. Vamos, pois, discorrer sobre o empatar, êmulo do purgatório.
Em muitas ocasiões, quando deixamos fugir de nossas mãos um jogo ganho, vemos o empate como uma derrota. Em outras, o enxergamos como uma tábua de salvação, uma vitória, pois escapamos de perder de uma posição inferior.

O que é o empate? Segundo o Aurélio, empatar no jogo de xadrez significa chegar a uma posição em que é impossível dar xeque-mate.

Nós, que conhecemos as regras da nobre arte de Caissa, sabemos que esta definição, senão mentirosa, ao menos é incompleta. O empate no xadrez pode-se dar em diversas ocasiões, tais como:

a) Afogado: quando um dos lados, sendo sua vez de jogar, não tem mais nenhum lance válido a executar, o jogo termina por afogo, e, apesar do lúgubre nome, parece um empate legítimo. Este tipo de igualdade freqüentemente é fruto da afobação e do mau jogo de um contendor; na prática desportiva é raro um empate por afogo acontecer como intencional, planejado como tática de um dos jogadores.

b) Por insuficiência de material: quando ambos os exércitos quedaram tão depauperados que não podem pretender à vitória, e que acontece quando a resistência estóica do rei nu é recompensada com o cumprimento fraterno de seu igual, também ele desnudo de meritória companhia.

c) Por repetição de lances: quando o mesmo desenho é repetido três vezes sobre o tabuleiro, um dos lados pode reivindicar o empate. Para o jogador que apresenta desvantagem material ou posicional, vale a célebre frase de Bilbo Bolseiro, o Hobbit Senhor do Anel: “- A terceira vez é sempre a mais gostosa!”.

d) Por xeque-perpétuo: quando um dos lados, normalmente inferiorizado em seu jogo, ameaça com xeque o rei adversário “ad infinitum”. Este tipo de empate é, na prática de torneio, poderosa arma tática quando estamos em desvantagem e devemos sempre “garimpar” no tabuleiro a oportunidade de sua ocorrência.

e) A regra dos 50 lances – na verdade, eufemismo para a falta de iniciativa, quando um dos lados não pode impor sua superioridade de material, seja pelas condições de jogo ou por mera incompetência, o jogo é considerado empatado. Também é pouco freqüente em torneios de alto nível.

f) Por combinação entre as partes – por fim chegamos ao mais importante e controverso dos empates, o de comum acordo entre os jogadores. É de longe o que mais ocorre entre os mestres, sendo algumas posições tão complexas que, a nós, leigos, amiúde vezes cabe-nos a difícil tarefa de visualizar a igualdade entre as peças brancas e negras.

Este empate deveria sempre ocorrer por conveniência dos dois lados, mas, às vezes, o que é pior, beneficia apenas um jogador.

Num torneio mundial de juvenis, ocorrido algumas décadas atrás, bastava aos dois contendores o empate para ambos passarem à segunda fase do campeonato. Sentaram-se, cumprimentaram-se e jogaram poucos mais de uma dezena de lances de uma linha “manjada” da Ruy Lopez, empatando em seguida.

Para surpresa deles, entretanto, o juiz principal não aceitou a planilha e mandou jogarem nova partida, pois o resultado combinado prejudicaria outros jogadores.

Os dois, tinhosos, sentaram-se, cumprimentaram-se e executaram 1.e4 e5 e disseram que não jogariam mais, estabelecendo grande confusão na arbitragem do torneio.

É lógico que trata-se de uma questão das regras, que um bom juiz pode decidir como proceder. Não nos esqueçamos, porém, que o jogo tem um lado ético, moral, que não pode ser desprezado.

A quem pertence o jogo? Somente aos jogadores? Ao árbitro? À sociedade e ao mundo em geral? Questões relevantes que devemos encarar de frente.

Muitos dos empates entre mestres ocorrem partindo do pressuposto que o outro lado não vá errar, que a posição é bastante nivelada para que deslizes não possam mais ocorrer. Sabemos que, embora raramente, os grandes jogadores também erram. Ouso dizer “- Quem nunca errou na frente do tabuleiro, jogue a primeira pedra”.

O lado psicológico do xadrez não pode ser desprezado. Muitas vezes o empate ocorre por preguiça, medo ou covardia de um dos lados ou mesmo dos dois. Lembremos que o empate socializa, é coletivo. É a única coisa que os dois jogadores podem querer e conseguir fazer juntos, além de competir.

Até agora nadamos à superfície dos fatos; vamos mergulhar em águas mais profundas:

Para a verdade, nada melhor que buscar a etimologia das palavras, que traduzem, de forma arquetípica, todo seu conteúdo interior. A palavra empatar vem do latim, e significa fazer um pacto, estabelecer a paz. É um estado permanente e antônimo do bélico. Por semelhança significa embaraçar, tolher o adversário, encontrar obstáculo que impeça a vitória definitiva. Também pode significar investir, empregar, como na frase “empatou seu dinheiro todo em ações”.

No italiano a palavra empregada para a igualdade no xadrez é “patta”, com as mesmas raízes latinas e os mesmos significados adjacentes. Como vemos, trata-se de palavra positiva, representando a paz entre as partes, que pode ser conseguida mediante acordo mútuo, em sentido diverso da acepção usada em nosso dicionário, já citado.

Já no francês a palavra usada é “nulle”, ou seja, nulo. Curiosa utilização, sendo esta língua também de origem latina. Como sabemos, no xadrez o empate conta ponto (meio) e na maior parte das vezes estes tentos conseguidos pela igualdade são os que decidem os torneios de múltiplos contendores. Faço uma ilação, fruto apenas de minha imaginação exacerbada: sendo a França o país berço de Cyrano de Bergerac (que existiu de fato, e não apenas na obra homônima e ficcional de Edmund Rostand), de Gargântua e Pantagruel e dos três mosqueteiros, a expressão “nulle” se justifica. Na esgrima medieval o combate era até a morte, sendo que o empate era considerado nulo, ou sem valor para a honra dos lutadores.

No idioma espanhol a expressão usada é “tablas”, que significa mesa, tábua e também tabela. Vários jogos de baralho utilizam a expressão mesa para indicar a banca, ou seja, tentos que não vão para nenhum dos contendores. A tábua de Moisés continha também os dez mandamentos, contendo as regras que deveriam reger a vida do povo escolhido.

Na língua inglesa a palavra utilizada é “draw”, com o verbo significando, além de empatar, puxar, tirar, arriscar a sorte ou o destino. O dicionário Novo Michaelis cita literalmente - “empatar o jogo sem terminá-lo”, o que, de fato, é o que geralmente ocorre. Outra acepção curiosa é espremer, secar, tirar o líquido (vinho) de um barril, o que remete, por semelhança onomatopéica, a “dry”, seco. Sendo os ingleses um povo do mar, que se dá melhor navegando nos oceanos do que em terra firme, penso que o empate possa ter uma concepção árida, de secura. Delírio, mas quem for ver “O Mestre dos Mares”, filme ora em cartaz, verá que alguma razão, ainda que remota, tenho. Quando as idéias secam, vem o empate.

Ainda mais curiosa é a palavra alemã para empate, usada no xadrez, que é “remis”. De origem aparentemente latina, remir significa libertar, redimir, perdoar. Assim o empate liberta do quê? A resposta é óbvia, e é citada no Aurélio: livrar-se de uma situação arriscada, ou seja, da possibilidade de derrota.

O medo de perder é inato na psique do jogador de xadrez. Eu diria que ele é o pai de grande parte dos empates. Lógico que insistir em posições totalmente igualadas é, além da falta de cavalheirismo, burrice; mas empatar por medo da continuação é falta de inteligência e indicativo de carater pusilânime.

Uma consideração importante é a avaliação de nosso jogo, e, principalmente, do adversário. Quando você convida o outro jogador a empatar (ou quando recebe o convite), você tem que efetuar uma análise do valor da posição do tabuleiro. Neste momento não importa o passado, quem tinha a iniciativa, quem tratou melhor a abertura. As peças dispostas sobre os quadrados negros e brancos contêm a verdade e encerram todos os significados futuros. Se você avalia de forma distorcida sua posição, na vida ou no xadrez, sua possibilidade de erro é muito maior.

No seu próximo empate, pense: estou empatando em português, fazendo um pacto de paz com meu adversário. Ele merece isto? Estou pensando em francês, e meu jogo será nulo. Eu mereço isto? En garde! Como capitão desta fragata inglesa, desfraldarei branca bandeira, ou lutarei até o fim para mandar ao fundo do mar este inimigo galeão? Canhões de bombordo, preparar. Sendo a filosofia germânica ímpar, estou empatando e me libertando do quê? Da derrota ou do medo que tenho dela?

Brincadeiras à parte, a Bíblia já dizia que ou quente ou frio, morno jamais. É atribuída a Bob Fischer a frase que, desde que jogasse com as brancas, poderia empatar com Deus. Eu muito tenho laborado na vida para estar em paz com meu Criador, conforme a definição da língua que amo e na qual modestamente tento escrever.

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Ivan Carlos Regina

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