No dia 09 de Março de 2006, ficamos surpresos com a prisão de várias pessoas importantes dentro da sociedade capixaba. Entre elas, figurava o empresário-político conhecido como Xyco Pneus. Puxei na memória a ocasião em que estava sem dinheiro para continuar meus estudos em um seminário protestante. Procurei esse homem; diziam que tinha o poder de abrir portas. Foi na época em que ele era líder de uma associação de empresários evangélicos (Adhonep). Na realidade, não posso falar nada sobre o seu caráter, até porque, sequer fui recebido por ele. Deixei meu curriculum com uma educada secretária e fui embora com a minha insignificância.
Meu objetivo com esse texto, não é atingí-lo pessoalmente, ou aproveitar-me do momento, “E agora José?”, que o suplente de Magno Malta vive. Tenho que admitir: na ocasião em que procurei o então emergente, líder político-empresarial-religioso, minha visão de mundo era estreita e comum àquela laia. Lá pelos vinte anos, quando se imagina ser imortal; e que tudo é possível ao que crê no poder da persuasão. É compreensível o desejo de ser bem sucedido a qualquer custo.

Vou admitir também, que não obtive êxito por pura rejeição. Era apenas mais um garoto inteligente, entre tantos outros; que o assediava sem oferecer nada de concreto em troca. É praticamente impossível, entrar em um rol tão abençoado, sem ter sinais convincentes da companhia divina. Afinal esse é o pensamento que dirige esse círculo: “Quem é filho do dono do mundo; deve dominar.”

Desde essa época percebi que estou em lado oposto, sem o amparo das beneses divinas. Um ser humano de carne e osso; sem a capacidade moral desses ícones. Um brasileiro somente; enfrentador de filas; frequentador das conduções lotadas; mais um errante pelos corredores hospitalares; mais um que não é entrevistado na TV como homem milagroso, em uma hora comprada a suor dos trabalhadores. Enfim, me dei conta, que sou um perdedor; amaldiçoado pelo destino em nascer no país que crê em tudo, menos na capacidade de viver honestamente.

Está na moda entre os presos ricos, esconder as algemas com uma bíblia. Quem me dera se vívessemos em um país, no qual, aquele que profana os símbolos sagrados é espancado até a morte. Eu teria muita satisfação em tirar um pedaço desses desgraçados com minhas próprias mãos. Porque quem usa a fé dos humildes como escudo, sobre o quê terá apreço?

Talvez você ache o meu texto exagerado. Ou que não estou sendo democrático; ou civilizado. É verdade: Só devo parecer um animal quando estiver na fila do SUS; para fazer referência à pessoas de bem, tenho que utilizar pronomes, roupas adequadas, e uma falsidade peculiar a esses ambientes.

Não estranhe meu jeito rude de falar. Isso aprendi quando fui operário durante sete anos, e se hoje tenho a pretensão de dominar as letras, é porque desfruto da mesma loucura de outros brasileiros renegados. Isso vem da minha admiração por Conselheiro, Zumbi, Chico Mendes, Tiradentes, e tantos outros polêmicos, odiados, e rechaçados pela sua postura enfrentadora. Não me convém julgar o mérito das suas reivindicações, mas é inegável a coragem dessas pessoas em não aceitar o cabresto servil, como a maioria do povo o faz.

Seria leviandade afirmar, que, se o meu contato com aquele empresário tomasse outro rumo, hoje estaria escrevendo esse texto. Será que estou agindo como aquela raposa que não alcançou as uvas e por isso, afirmou que não eram tão saborosas assim?

As críticas e o ímpeto revolucionário deve ter esse cuidado: Não pensar em derrubar as elites para colocar outra no seu lugar. Sejamos sonhadores não somente quanto à conquista, mas acima de tudo, no usufruto dela. Sejamos capazes de obter a revolução mais complexa: o domínio sobre nossas próprias fraquezas pessoais.

Os “heróis” citados anteriormente, eram seres híbridos. Revolucionaram porque viveram entre dois mundos e lutaram para que fossem um. Isso é possível? Em sua maioria, distanciaram-se do povo. Em algum momento o profeta, deixa de lado sua condição e vira sacerdote. Deixa de comer gafanhotos e passa as iguarias palacianas; acabamos de presenciar isso com o presidente lula.

Meu consolo é que por enquanto ainda estou na fase da aroeira – quanto mais corta mais viva fica; sendo podado a todo instante no que penso e vivo. Nesse quesito tenho muito a agradecer aos meus amigos interesseiros. Porque quanto mais mutilam meus sonhos, mais eles se multiplicam, e alcançam mais pessoas que não tem onde repousar sua cabeça para dormir.

Eu também tenho o meu ópio: Enquanto for rejeitado pelos “homens de bem”, como o Srº Francisco, vou fingir que estou no rumo certo. Sem lenço, sem documento… e agora também sem cueca, mala e bíblia…

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