É… pois é, meu bem…/Castelos de areia derretem quando a onda vem/Estamos no ano 4 mil/Não existe mais calor nem frio/Ninguém morre, ninguém fica mais doente/Só uma coisa nos tira o sossego/É que apesar de/sermos eternos/O medo é que neste fim sem fim/Seremos sugados pelo buraco negro (Moska/Castelos de Areia)

Essa discussão sobre cotas me deixa confuso.

Não sei se é pelo momento em que vivo dentro da Ufes.

É difícil entender se os defensores das reservas, estão desejando de fato, um país justo em oportunidades; ou, se as reivindicações não tem como pano de fundo, o mesmo oportunismo que massacra os desfavorecidos há séculos.

Aliás, não é de hoje, que a pretexto de defender os pobres, pessoas inescrupulosas, obtém ascensão, dinheiro e poder às custas de “castelos de areia”, derrubados com a mesma brevidade da sua construção. E por falar em “castelos de areia”, essa é a melhor metáfora para um estudante universitário hoje no Brasil.

Eu que sempre estudei em escola pública e não sou tão branco assim, sei muito bem qual é o preço de sonhar com um futuro melhor através dos estudos.

Para simplificar o problema, digamos que as cotas pressupõem que o pobre não entra na universidade porque não passa no vestibular; Mentira! Na que eu estudo, por exemplo, 47% dos alunos são provenientes desse sistema. O que ocorre aqui na Ufes é o mesmo que ocorre em qualquer ponto das nossas cidades: Os pobres estão escondidos nos “becos”; pelos cursos que não recebem verbas; enfim, eles estão em graduações capengas, nos cursos noturnos, onde os doutores não dão as caras, onde não há pesquisa ou laboratório, estão a serviço do ensino de cabresto, serão reprodutores do pragmatismo que impera no mercado de trabalho; sem voz para influenciá-lo.

Meu amigo, onde estudo, pobre é pobre do mesma forma que é pobre em qualquer outro lugar. É discriminado, jogado de lado, e o pior: quando disputa uma vaga no mercado de trabalho não há cotas ou qualquer outro privilégio, tem que disputar com os filhos dos ricos e aos poucos vai percebendo que a realidade joga-o no gueto de novo. Mais cedo ou mais tarde aceitará um emprego subalterno, retirando um pai de família “menos letrado” da sua função braçal.

Se está ocorrendo alguma mudança, é aquela que favorece ao empresariado.

Essa classe, agora vai contando com um novo tipo de mão de obra barata: os famintos com diploma em baixo do braço; que durante a faculdade, como estagiário, já aprende a substituir um profissional ganhando 20% do seu salário, com o diferencial de ser “sangue novo”. As pessoas com noção crítica, deveriam se dar conta, que o financiamento de projetos sectaristas somente aprofunda as desigualdades.

Os simples, novamente estão sendo vendidos por “neo-caciques”. É uma contradição histórica o ideal de progresso fácil, foi com esse sonho que os índios venderam suas terras, foi dessa forma que milhões de pessoas foram vendidas como escravos no Século XIX.

É isso mesmo: não nos esqueçamos que eram os negros que vendiam os negros na áfrica; que os índios negociaram a terra dos índios no Brasil. Tudo sob o sofisma de estar construindo um mundo melhor para todos. Essa criticidade é um golpe duro para mim, juro que não queria ter essa percepção. É chato demais presenciar a elite afundando de vez o povão. E o pior de tudo: faz isso com o auxílio de quem deveria protegê-lo.

Ora, seu ingênuo; para quem pagou escola particular a vida inteira, qual seria a diferença em pagar mais quatro anos? Eles não estão na universidade pública para economizar, estão nela porque é a melhor. E quando não mais o for, sairão com a mesma determinação que entraram. Aí sim, a exemplo do que ocorre nos países de capitalismo selvagem, o pobre estará fora dos Centros de Referência. Nesses países, além do candidado possuir superioridade intelectual, é necessário dispor uma soma gigantesca de recursos, para ingressar em uma High School.

O provável é que no futuro, o governo e o povo fiquem com o deficitário, com o ultrapassado, com os cursos meia-boca. Vamos comemorar o acesso ao inútil, ao que ninguém quer…

Amigos!

Para que um pobre consiga romper com os laços de miséria, não é necessário “jeitinho” de governo populista. É preciso, apoio, coragem e confiança da família; admiração e respeito da sociedade por quem dedica seu tempo aos livros, e não o atual estigma de vagabundo ou prostituta.

Enfim, não precisamos das esmolas do Lula, ou de qualquer outro político oportunista. Somente peço que reconheçam a nossa obstinação em lutar por um país, no qual as pessoas vençam com seu próprio esforço.

Até por que, as empresas não escolhem seus profissionais, com os mesmos critérios que nós escolhemos nossos governantes.

Tudo de bom!

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