Hoje irrompeu aqui no escritório mais uma pessoa irada. E por que não dizer em ponto de ebulição. Era é um preto. Vá lá, se fosse branco falaria dele? Talvez não. Sim, nós brancos - sou um mulato na verdade - imaginamos que os pretos não podem zangar-se.

Mas havia outro detalhe que me intrigou, eis o diálogo:

- Quero que você resolva meu problema agora, pois já perdi a paciência. Não suporto mais vir aqui e não ter a solução. Você não sabe do que sou capaz de fazer se você não tomar uma providência de imediato.

Já fui alertado que não devo rir em situações de extrema tensão. Já fui alertado que corro sérios riscos quando estalo uma gargalhada irônica em resposta a uma ameaça. Mas confesso que dessa vez não suportei a barra: eu gargalhei com força.

Na conversa a que me refiro houve uma certa anacronia entre ação e idade. Isso mesmo, perguntei-lhe seu tempo de vida, e ele respondeu com algum acréscimo obviamente:

- 16 anos.

Eu já havia cruzado com a figura. Lhe achei um entrão. Sabe aquele tipo de gente que chega com uma presença exagerada. Ele é uma figura desproporcional em vários aspectos. Não falo somente por renegar o esteriótipo do preto manso. Ele realmente me fascinou pelo seu irrompimento com diversos estigmas que carrega uma pessoa preta, pobre e infantil.

Eu o convideu a retirar-se do meu escritório, é lógico. Achei um desaforo sua ação, até porque o assunto em questão não carecia de tanta violência. Ele também percebeu e reconheceu sua atitude imprópria. Não chegou a pedir desculpas, mas após uma dura, colocou-se no seu lugar. O lugar a que me refiro não ter a ver com etnia, idade, ou condição social. O lugar de pessoa lúcida que deseja se impor com respeito e não despeito.

Algo que me faz abrir portas nessa vida é a aceitação da minhas limitações. Limitações de toda ordem. Digamos que até as limitações de ordem física, uma vez que sou muito franzino, aprendi logo cedo que a maior força é a sutileza. A educação abre portas que gigantes não conseguem passar.

Volto ao garoto. Fiz o máximo por ele. E disse-lhe para tomar cuidado. Eu cresci em um bairro violento, e ele vive em uma realidade hoje, mais violenta que a minha.

Logo percebi um perfil brilhante no rapaz. Um perfil de vendedor, e eu lhe disse isso. Falei que ele teria ótimas características para convencer e até mesmo para pressionar. Mas deveria achar a medida apropriada para se manifestar. No fim o rapaz estava visivelmente arrependido, chegou a dizer o quanto seu irmão me “achava inteligente”. Eu retruquei lhe dizendo que eu poderia lhe dizer muitas coisas, mas a vida é a nossa melhor professora… as vezes uma professora que não oferece chance para se desculpar…

É de esperar que uma postagem como essa seja tomada por racista. Afinal, nossa sociedade é racista. Somente por citar o termo “preto” somos racistas. Isso é triste. A cor é uma característica que todos os seres humanos trazem consigo. Ela não deveria ser o vetor para formar uma opinião preconceituosa. Quando alguém sugere que um preto não possui o direito de zangar-se traz a idéia do escravo servil nessa afirmação.

Das características citadas logo acima me enquadro em uma particular, sou um cidadão que vive na periferia brasileira. Eu sofro juntamente com grande partes dos negros e mulatos, o preconceito por viver na periferia. Mas o preconceito que mais me incomoda, não é de quem está fora do nosso ambiente, mas o preconceito que surge de dentro para fora.

Eu nunca aceitarei a idéia que devo protestar pelos meus direitos. O direito não deve ser imposto, mas deve surgir como fato, naturalmente. Isso soa um tanto budista. Contudo um bom exemplo prático é a minha entrada na Universidade Federal que se deu pelas vias convencionais. Sou um eterno estudante de escola pública, nunca paguei para estudar. Acredito que esse fato me dá cacife para conversar com qualquer universitário de igual para igual. Outros meios de entrada na universidade seriam para mim constrangedores, e por que não dizer, indicadores da minha insuficiência intelectual para ingressar em um curso superior.

Ainda hoje uma senhora, também preta, veio aqui. Ela está com um problema maior que o do rapaz citado no início. Essa senhora me constrangeu com sua doçura. E constrangeu o dono da empresa que está em dívida com ela. Enquanto não resolver o seu problema não vou dormir direito. Ela não precisou gritar nem espernear. Ela tem consciência do seu direito. E irá aplicar a lei caso não seja atendida satisfatoriamente. E isso por si só nos faz agir com diligência para o seu caso. Ela nem sequer mencionou isso. Eu cheguei a começar a me desculpar com ela e admitir nossa incompetência. Cheguei a dizer que não valia a pena continuar a trabalhar nessa consultoria somente para dar desculpas. Ela me cortou rápido, e disse que também fora empresária e sabia o quanto era difícil começar. E que eu seria muito imaturo se desistisse nesse momento tão crucial.

A vida é mesmo a melhor professora…

Toda vez que uma postagem dá muita polêmica penso logo em tirar… e acho que essa tem muito potencial para isso…

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