tropa.jpgEssa é a constatação que tenho obtido no treinamento que estamos realizando aqui na Cidade de Serra/ES. Mas também diga-me a verdade, se a cena ao lado fosse comum no seu bairro, você também não teria vergonha?

Ao fazer uma divulgação bem profissional dos cursos, com mais de 5.000 panfletos, mobilizamos mais de 150 pessoas em uma palestra gratuita sobre os temas: “Como elaborar um curriculum?” e “Dicas de Entrevista”. Também nesse encontro sorteamos várias bolsas para o nosso curso. É válido ressaltar que o comércio local foi bem receptivo, e nos ofereceu muito apoio para realizar o evento, enfim, pelo menos isso.

Sim, foi uma noite de muita expectativa para nós. Mas eis que ao fazer a palestra sentimos que os ouvintes estavam impacientes após uns 30 minutos. Logo percebemos que o tema era maçante para eles. No meio da palestra alguns já se levantaram e foram embora, outros ficaram pelo interesse em ganhar uma bolsa, e acredito que uma minoria queria realmente assimilar o conteúdo exposto. Então após o sorteio ficou aquela expectativa, muita gente em volta perguntando e percebemos então que havia interesse pelo curso mas a escassez de dinheiro é muito grande por essas bandas. Sacrificamos nossos custos com o curso e decidimos dar um desconto de 50% na primeira parcela; o que nos comprometeu muito junto aos credores.

020917_pobreza301.jpgPara nossa surpresa com o tempo surgiram várias pessoas de outros bairros, e até mesmo pessoas da capital para estudar conosco. Eles viajam de ônibus cerca de duas horas para nos ouvir, e isso é muito recompensador.

Outra surpresa positiva é a presença de alguns comerciantes, que mesmo com um grau de instrução desvantajoso, têm nos ensinado muito com as suas experiências. Esses pequenos comerciantes dão de 10 a 0 na maioria dos meus colegas, acadêmicos, que vivem a puxar o saco dos seus gerentes nos estágios por aí.

Vale ressaltar isso: mesmo com a apatia que vejo dentro da universidade, aqui fora, no mundo real, percebo que as pessoas praticam de verdade o que os acadêmicos dificilmente conseguirão um dia; pois é notório a falta de coragem e ousadia destes.

O que tem sido motivo de muita tristeza para mim é o fato do nosso projeto ter ganhado poucos adeptos no bairro local. Percebemos, logo de cara, que uma mentira seria muito melhor, enfim, deveríamos ter omitido nossa origem, pois é visível a vergonha que eles possuem do seu próprio bairro. Nós fomos inocentes nesse quesito ao afirmar que somos da mesma origem. Mas enfim, nosso interesse não é dinheiro prioritariamente - ainda que ele seja muito bem vindo - ainda alentamos que os pequenos comerciantes e os profissionais que estão entre nós, cresçam muito nesses próximos meses. Tanto no conhecimento como em quebrar essa barreira preconceituosa.

Estamos tremendamente empenhados nisso, para mim é uma questão de honra que eles realizem seus sonhos. Temos para isso muitas ferramentas nas mãos. Somente minha primeira apostila - uma em três - tem cinquenta páginas e a da minha parceira mais cinquenta, enfim, é um material de conteúdo forte.

020913_favela300.jpgEsse é outro detalhe que tem sido alvo da minha preocupação por aqui. Recentemente, coloquei algumas matérias de jornal, para que fossem discutidas em sala de aula. A resistência foi grande. Percebi muita desmotivação dos nossos treinandos por praticar um ato simples: A leitura. Sim, estamos travando uma luta também contra a cultura da ignorância.

Não bastasse o preconceito que me fez distanciar da minha família, que é a idéia que o estudo prejudica quem trabalha, mesmo depois do meu distanciamento deles, tenho que superar no meu próprio trabalho esse fantasma que ronda minha vida. Eu ainda não considero esse um problema a ser evitado, como os governantes o fazem. Para mim esse não é um problema nem a ser evitado, nem a ser mascarado, mas um problema a ser superado; e estamos muito empenhado nisso.

É muito gratificante depois de algumas horas de insistência com eles… Existe uma resistência imensa a princípio. Outro dia cheguei a pegar o texto e ler para eles. Enfim é como se eu estivesse os pegando pelas mãos. E acho que eles estão percebendo minha força de vontade e alguns se esforçam e tentam efetuar as tarefas e vencer a comodidade. Eu acredito que é desse jeito que se modifica um país.

Ainda terei muitas histórias para trazer até vocês espero que tudo valha a pena, sem a necessidade de possuir uma alma medíocre para isso…rss

Enfim, termino dizendo que o meu idealismo vai morrendo aos poucos, e vou mais longe: a força de vontade, dá lugar à competência. Infelizmente os pobres vão continuar ficando para trás, tudo o que se pode fazer está sendo feito. Nesse semestre reprovei em várias disciplinas e deixei meu trabalho para trás para sonhar com um futuro melhor para meus amigos daqui, mas me vem uma pergunta à mente, a mesma pergunta que fiz quando me distanciei da igreja: Será que eles, os próprios dominados, desejam sair desse estado de dominação?

Sei, é uma discussão longa e cansativa, que inclui de Weber a Foucault, então vamos parar por aqui, porque a hora é de muito trabalho pela frente para vencer as dificuldades que coloquei nessa postagem… aos poucos vamos entender melhor essa “vergonha” que o periferia possui de si mesma.

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